Numa tarde gelada de 2017, em Tromsø, Mikkel Brenna, motociclista freestyle norueguês, testemunhou algo mais espetacular do que o seu primeiro underflip cravado contra a gravidade. Estava exausto. O frio do Ártico ainda impregnava o poliéster e o nylon balístico do macacão verde e branco. O cheiro de gasolina se misturava ao de resina de pinho que vinha da sala. Tirou as botas, a jaqueta, e foi se jogar na poltrona Svane®, cor vinho, ergonomia impecável, elegância atemporal.
No instante em que sentou, aconteceu. Uma lucidez antiga e nova ao mesmo tempo, ou justamente sem o tempo, um déjà vu da existência inteira. A distância entre perceber a poltrona e a poltrona percebida tinha desaparecido. Ele soube que ela não existia antes daquele momento, embora conhecesse seu lugar na sala. Seu corpo calculara a distância até o assento. Mesmo assim, a poltrona acabava de surgir. Do nada. Conjurada no exato segundo em que ele afundou nela.
Então vieram oito anos de memórias. Claro que a poltrona estivera ali, no canto esquerdo da sala, todo esse tempo. Lembrou os repousos, os cochilos, as trepadas rápidas, as marcas discretas no couro. Passou a mão nelas e reconheceu um sulco maior junto ao braço. Percorreu o contorno com a unha.
Mas o espanto renasceu.
O arranhão, os oito anos, a mão que confirmava os anos — tudo brotava junto. Ele e a poltrona participavam do mesmo espetáculo criacionista. A realidade fora remendada com lembranças, mas a costura foi flagrada em ação.
Foi preciso um movimento mais contundente. A mente agarrou a poltrona e a empurrou para uma origem fixa. A loja com o vendedor com a negociação com a compra com a cor vinho em vez da preta. O transporte até a sala. A imagem da aquisição se sobrepondo ao surgimento da poltrona. E não foi fácil de passar pela porta. Era preciso inclinar para não danificar os batentes. Uma pequena dor de cabeça.
Passou.
Agora ela tinha vindo de algum lugar. Podia ficar.
Mikkel soltou os braços do assento. Ligou o som. Volume sete de dez. Tocava “Mirror”, da banda Public Memory. Imaginou pequenos ajustes para o frontflip. Precisava acertar a posição do corpo antes de perder contato com a rampa. “Maldito medo de altura”, disse em voz alta.
Ao sair da sala, olhou para a poltrona. Oito anos. Ainda estava boa.