Terceiras margens

I. O conto

Um pai, sem aviso nem explicação, manda construir uma canoa robusta e parte sozinho rio adentro. Passa a viver ali, sem nunca mais pisar em terra, mas sem se afastar fisicamente: vai e vem pelas águas, sempre meio à vista, inalcançável. A família reage com espanto e depois com resignação. Os irmãos casam e partem, a mãe também se muda, e o pai permanece remando por décadas, em parte sustentado pela comida que o filho, o narrador, lhe deixa às margens de cá. Só ele continua ligado ao incomunicável pai, e nunca entende, nem consegue explicar aos outros, por que o pai escolheu exilar-se. Já velho, suplica que o pai volte e se oferece para tomar-lhe o lugar na canoa. O pai se aproxima e o filho, tomado de pavor diante da iminência do encontro, ou da sucessão, foge e nunca mais o vê. Ainda mais culpado que antes, sente que já não pertence nem à terra nem à água, e pede que, ao morrer, o depositem também numa canoa, para ser entregue ao rio.

Essa é a história de A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa.

II. As terceiras margens do pai

A terceira margem do pai é, no primeiro plano, literal. Ele inventa fisicamente um terceiro termo em vez de ficar em casa ou de partir de vez. Vira uma presença que não partiu (não atravessa para a outra margem, não desaparece rio abaixo, não morre, não inaugura outra vida em outro lugar) e tampouco ficou (não habita a casa, não exerce a função, não fala, não convive). Estranhamente, passa a habitar o próprio rio como território. O entre-lugar que normalmente é apenas passagem vira uma espécie de moradia movediça, heraclitiana por excelência. Rosa literaliza a topologia: o que para nós é signo de trânsito (o rio como aquilo que se atravessa) torna-se, para o pai, habitação. Essa é uma leitura, digamos, bonita, quiçá ontoespiritual da “terceira margem”.

Em outro registro, o das relações deveras mundanas, esse gesto paterno realiza uma espécie de autoextinção antecipada. O pai abandona o exercício cotidiano da paternidade sem morrer de fato. Retira-se do convívio sem deixar de organizar indiretamente a existência do filho — ele recolhe parte das comidas e roupas a ele deixadas, pelo filho, na margem do familiar, e aceita, mesmo que indiretamente, a posição de “ser cuidado”. Em parte, o pai é mero corpo físico nos arredores da família, em parte é o o fantasma de um pai que o filho não consegue liquidar nem suceder, que não morre, não abdica publicamente, não se torna simplesmente abandonador ou pai-presente: sai do jogo e, no entanto, continua a rondar sobre as linhas do campo, à margem das margens. O filho, por efeito geracional, permanece sustentando e mirando algo que já não está ali para ser atingido, como se lhe fosse sequestrado até o direito ao parricídio simbólico. Nem como “fraco” se pode determinar o pai, pois há justamente uma determinação radical em seu ato, férrea, monástica até, em permanecer para sempre remando uma canoa, em caráter de enigma vivo.

A terceira margem do pai é fundada pela metadecisão de não decidir entre ficar ou partir. Mas só podemos dizer isso a partir da versão do filho, justamente quem não entende os motivos do pai. A aura de decisão soberana do ato paterno pode ser, em parte, efeito de leitura, já que o mistério é também o modo como o filho o constrói. A terceira margem seria então, além de um lugar no rio, a posição em que o filho mantém o pai para poder continuar esperando por ele.

III. As terceiras margens do filho

A terceira margem do filho é de ordem temporal e decisória. O lugar que ele arma para si, no mundo, é ficar exatamente onde foi deixado pelo pai. O filho oferece sua vida para dar substância ao abandono, e o que inventa é um modo de gastar o tempo, sendo aquele que espera. Daí a culpa indeterminada que salta antes de qualquer gesto final. Pode ser culpa por desejar a morte do pai, por não conseguir acompanhá-lo, por não se considerar amável o suficiente para que o pai sinta a sua falta, e à casa retorne, ou uma que já vinha se acumulando havia décadas, a de ter escolhido a função de aguardar do pai uma orientação que ele nunca deu, fosse para ser seguida ou transgredida. O filho fica parado sem descobrir qual lei deveria ser rompida ou cumprida, e só percebe, tarde, que gastou nisso o tempo que teria para viver (“Sou o que não foi, o que vai ficar calado”).

Quando, ao final, o filho se precipita e se oferece para tomar o lugar do pai (“O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…”), propõe de fato sucedê-lo: ocupar o barco, o rio, o não-lugar, transformar-se no “não-encontrável”. Mas, no instante em que o pai parece aceitar a troca e se aproxima, o filho recua e foge. Acontece que, ao fugir de repetir a fuga paterna, repete-a e a nega a um só tempo.

O pai abandonou a convivência e o filho abandona a possibilidade do reencontro: terceira margem de segunda mão, nem transgressão, nem obediência. Posterga a sucessão e reafirma sua decisão de adiar-se, como forma de vida.

Ao desistir de resgatar o pai, a sucessão fica reservada para o momento da própria morte, como espécie de maldição, quando poderá cumprí-la junto de sua negação última. O filho pede que, no “artigo da morte”, o “depositem” também numa canoa, sozinho, rio adentro. Repete assim o gesto paterno numa versão bem mais aguada: o pai é aquele que rema vida nem adentro nem afora, sem dar explicação; o filho é este que pede para ser depositado enquanto corpo final, à deriva, para receber o gesto em vez de fazê-lo — talvez para dar concretude ao misto de herança com dívida da imagem paterna. Um entra na canoa para viver sua decisão e outro demanda que o deponham noutra canoa para morrer, num quase-gesto. O chamado do filho, claro, não é o chamado do pai.

Que figura paterna se constitui no relato de alguém que passou a vida tentando decifrá-la? Se o pai funda a terceira margem como gesto, o filho a herda como sintoma.