Vídeo 1. Há, primeiro, o desejo pouco compreensível de lançar-se do alto de um penhasco. Talvez pela alegria quase redentora de sobreviver ileso a um perigo encomendado pelo puro prazer de enfrentá-lo. Um dos homens realiza o salto bem-sucedido, um salto mortal de costas que exige uma continuidade perfeita entre a decisão, a corrida, o impulso e o giro durante a queda, compondo a fruição de um só gesto. No pulo desastrado do outro homem, o corpo também dispara, mas o medo o faz hesitar tarde demais para cancelar o movimento que, a essa altura, só pode ser deformado. O espírito lúdico é bruscamente quebrado nessa perdição entre ir e permanecer: o impulso retira o corpo do chão enquanto a defesa enfraquece o salto pela metade. O fracasso do semissalto acontece nas duas intenções em conflito e um acidente perigosíssimo ocorre no espaço empiricamente inabitável entre aventurar-se e paralisar-se simultaneamente.
Em especial, interessa perceber como o medo deixa então de ser apenas a testemunha antecipada do perigo e passa a integrar sua causalidade — a própria tentativa de evitar o impacto desenha no ar uma trajetória que garante a fratura dos ossos. A inibição neurótica entra ativamente no acontecimento como uma espécie de autotraição. O medo sabotador opera para impedir a catástrofe imaginada, mas acaba providenciando justamente aquilo que faltava para transformar a ameaça fantasiada em um ato real: uma causa.
Para Alain Badiou, todo acontecimento verdadeiro comporta uma parcela de indecidibilidade. Nenhum salto oferece antecipadamente a garantia de que um amor, uma criação ou uma transformação dará certo. Quando o medo exige essa garantia antes de consentir ao acontecimento, esteriliza o campo em que algo novo poderia surgir, e a tentativa de proteger a vida contra a contingência acaba protegendo-a também contra a riqueza de suas possibilidades.
Essa estrutura do salto malacabado comparece em formas clínicas variadas. Se o sujeito teme demais esquecer as palavras e começa a observar cada frase enquanto fala, é mais provável que a atenção, dividida entre dizer e fiscalizar o dizer, rompa a continuidade da enunciação e produza o exato branco que a vigilância pretendia impedir. Se o sujeito insone se dá a ordem de adormecer, instala em si uma sentinela que verifica a cada minuto, com um holofote ruidoso, se o sono está chegando, e o espanta justamente ao procurá-lo. Na sexualidade, a exigência de comparecer de pau duro como sujeito de uma satisfação garantida torna-se ela própria broxante. E assim por diante.
Nas relações amorosas, o esquema pode durar anos. O medo de ser abandonado leva alguém a vigiar o ser amado, a exigir provas antitraição, a interpretar os silêncios com ficções altamente criativas e a testar repetidamente o amor que recebe enquanto retém a própria entrega, até transformar a relação numa provação interminável da qual o outro se afasta, esgotado. A separação se consuma confirmando a suposta lucidez inaugural de que ninguém permanece para sempre, embora a defesa contra o abandono tenha ajudado a fabricar justamente a cena na qual o sujeito se realiza como o terrível “eu-sou-abandonável”.
A imobilidade neurótica não tem paz, cobra um trabalho exaustivo. O sujeito gasta suas forças para assegurar que nada de mal aconteça e produz, por meio desse esforço, o acontecimento fechado e repetitivo contra o qual julgava lutar seu MMA mental, quase sempre em nome da liberdade.
O semissalto dramatiza, desse modo, uma espécie de microgênese do sintoma: a catástrofe imaginada convoca defesas, as defesas despotencializam o ímpeto de realização e deformam os gestos que, fracassados, retornam sujos de sangue à fantasia, deixando a previsão inicial coberta de razão — coberta, melhor dizendo, do gozo de ter razão. Repetida, essa sequência se consolida como uma solução sintomática e a causalidade se fecha sobre si mesma, tal qual uma fita de Moebius. A ameaça permanece exterior, mas o acidente revela a participação do movimento produzido por dentro.
Depois do acidente, o sujeito pode confirmar que sempre soube que não valia a pena correr os altos riscos de seguir-e-deixar-se-levar pelo fluxo de ser desejante.
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Vídeo 2. A animação desloca a ameaça indeterminada da queda para outra estrutura. O homem rasteja para longe do vazio que o atrai, embora cada investida de fuga corresponda ao mesmo impulso que o arrasta para o fundo. Quer dizer, a fuga ali já pertence à queda. O corpo se afasta aproximando-se, o corpo resiste obedecendo, o corpo sobe caindo – “o corpo é um buraco onde cai o corpo”, segundo Herberto Helder. Como na circulação de um toro, a tração da fuga e a atração da queda obedecem a um só ímpeto de a/tração.
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A cena dois não explica a um, pois são dinâmicas bem distintas. No semissalto, a defesa intervém num gesto já constituído e o deforma, por isso o contrafluxo acidenta o fluxo. No segundo vídeo, aquilo que parecia contrafluxo pertence desde o início ao próprio fluxo. Atração e expulsão permanecem distintas em cada ponto e perfeitamente contínuas ao longo do percurso que não se enxerga, não plenamente. Como num toro, afastar-se pode ser o caminho pelo qual se retorna, pelo avesso, ao lugar deixado para trás. Eu faria uma voz mais confiante, agora, para dizer esta esperteza: a fuga tem a mesma matéria e a mesma força daquilo que atrai.
O sintoma põe essa antinomia à mostra. O sujeito se afasta e permanece ligado por meio do mesmo gesto, e aquilo que experimenta como um combate entre forças adversárias pode ser a pulsação de um único ímpeto voltado contra a suposta consistência de si mesmo.
Essa antinomia é pulsional e ultrapassa o sintoma, que opera, junto da fantasia, como uma coagulação singular dessa estrutura – o estreitamento pelo qual a circulação começa a repetir a mesma volta e a produzir sofrimento. Nesse impasse, o percurso de uma análise pode afrouxar a órbita, devolver passagem ao que ficou retido e ampliar os destinos pulsionais, desde que a fantasia de uma desobstrução completa, de uma fruição absoluta e contínua, caia junto com a ideia de um sujeito finalmente livre de qualquer torção.
Alain DIDIER-WEILL: (…) Podemos imaginar que nesse momento o sujeito vai realizar um salto, não vai se contentar mais de estar separado do Outro pelo objeto a, mas vai proceder verdadeiramente uma tentativa de travessia da fantasia. [1]
Como, um sujeito que atravessou a fantasia radical, pode viver a pulsão? [2]
Jacques Lacan
O atravessamento da fantasia designa, em parte, a queda dessa promessa furada. Enquanto ela se mantém, o sintoma parece um labirinto que deve esconder, em algum ponto essencial de sua arquitetura, uma saída substancial, definitiva, como se bastasse atravessá-la para alcançar o júbilo do lado de fora, de onde finalmente se tome posse do “objeto vida”. Se faz sentido a ideia de atravessar a fantasia, então é preciso atravessar a fantasia que se produz sobre a promessa de uma “travessia da fantasia”, o que envolve perder a esperança de realização final e descobrir que a curva da qual o sujeito tentou libertar-se participa indelevelmente da forma pela qual se existe. O sintoma perde alguma coisa de seu aspecto depreciativo ao revelar-se como uma resposta transingular à estruturação antinômica e incompleta da relação do sujeito com a Coisa. No último Lacan, essa descoberta se prolonga num saber-fazer com o sintoma – uma maneira de habitar o nó sem continuar inteiramente governado pela repetição.
Uma análise pode soltar certos freios superegoicos que mutilam o gesto, restituir a diferença decisiva entre medo e prudência e devolver o acidente à ordem do acaso – às dores contingentes da vida, bem menos sobrecarregadas pelas vicissitudes neuróticas. Até aí, estamos no regime do primeiro vídeo. Com o segundo devemos ir mais fundo, levados pela gravidade desejante que participa do próprio ímpeto expansivo que amaria libertar-se. A cura precisa então tocar a relação do sujeito com essa força de que sua própria fuga do vazio também é feita. Nesse sentido, a lucidez reacende um sujeito que já não exige o fim da gravidade de ser-não-sendo.
Estranho salto, que provavelmente nos convencerá que ainda não nos demoramos bastante ali, onde propriamente já estamos. Onde estamos nós? Em que constelação de ser e homem? [3]
Para onde salta o salto, se se distancia do fundamento? Salta num abismo (sem-fundamento)? Sim, enquanto apenas representarmos o salto e isto no horizonte do pensamento metafísico. Não, enquanto saltamos e nos abandonamos. Para onde? Para lá onde já fomos admitidos: ao pertencer ao ser. [4]
Martin Heidegger

A fantasia do atravessamento da fantasia
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[1] Em LACAN, J. Le séminaire: Livre 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977). Staferla, disponível em: http://staferla.free.fr. Tradução minha.
[2] Em LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008 — p. 264.
[3] Em HEIDEGGER, M. O princípio da identidade. In: Conferências e escritos filosóficos. Tradução e notas de Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 377–385. (Os Pensadores, v. XLV).
[4] Em HEIDEGGER, M. A constituição onto-teo-lógica da metafísica. In: Conferências e escritos filosóficos. Tradução e notas de Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 179–202. (Os Pensadores, v. XLV).