Reticências

No terminal 2 do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, acomodados numa pequena Paul Boulangerie de preços extorsivos, loja esteticamente indecisa entre a pretensão da autenticidade e a padronização de uma franquia, um homem de terno marrom e sapatênis azul-marinho ignorava solenemente os sinais de aborrecimento do filho. À beira do choro, o menino se debruçava sobre uma mala Le Postiche tamanho GG, estendida no chão, e improvisava nela uma prancheta de desenho, enquanto o pai digitava compulsivamente no laptop, alheio até mesmo aos quitutes que uma garçonete letárgica acabava de trazer. Tudo ali contaminado pela mesma ausência de espírito. Ao fundo, uma voz mecânica lembrava aos passageiros a natureza impermanente dos portões de embarque.

A cena chamou a atenção de Rafael Yonamine, um brasileiro que reparou nas monocelhas da dupla. Impressionante, o moleque era uma miniatura do pai. Pelo sotaque inconfundível, Rafael reconheceu a origem comum dos três e, sem saber como interagir, interagiu:

— O que é isso aí?

O menino olhou para Rafael e avaliou-o rapidamente – outro brasileiro, gordinho e aparentemente inofensivo. Então respondeu, em tom melancólico.

— Um presente.

— É um coração enorme! Legal. É pra quem?

— Pra minha irmã. Ela é mais velha. É um cartão de aniversário.

Rafael conduziu a conversa e logo entendeu o motivo da angústia. Caio, como se chamava o menino, viajava para Porto Alegre para o aniversário da irmã, mas, uma semana depois, os dois voltariam a se separar por mais alguns meses. Os pais eram divorciados e aparentemente haviam dividido a guarda dos filhos por gênero, uma ideia tão absurda que Rafael preferiu tomá-la por delírio infantil. O problema imediato, porém, era outro. Caio tentava escapar do espaço euclidiano e, com o esforço de um demiurgo infantil, queria desenhar no papel um “coração sem fim”. Já tentara de tudo, mas as bordas da folha de sulfite o impediam. Os rabiscos pareciam nervosos, hemorrágicos, e os limites do papel tornavam seu coração algo finito, pequeno demais.

“E, se você olha de longe, ele fica menor ainda”, explicou, afastando o desenho para demonstrar o problema e a frustração.

Mas a tentativa em curso era promissora. Consistia num coração espiralado que crescia em torno de si mesmo. O problema agora se duplicava. Em um extremo, a ponta grossa da caneta Pilot vermelha impedia a criação de corações infinitesimais na região central. No outro, macroscópico, as bordas da folha erguiam uma barreira intransponível à expansão infinita do desenho. Era um problema de escala humana, quântica e cósmica. Caio estava ferrado.

Então, uma terceira voz se intrometeu. Era o pai:

— Filho, quando crescer, inventa uma microcanetinha do tamanho de uma molécula e fica rico. Isso não é problema.

Vindo do outro lado do universo, o conselho paterno não surtiu efeito. Caio ignorou o comentário daquele jornalista de economia, diplomata, juiz, desembargador, ministro da Fazenda. E Rafael, designer e DJ, sentiu-se ainda mais dividido. Parte dele aceitava que nenhum pai é capaz de acompanhar todos os dilemas existenciais de um filho. Quem sabe fosse esse o caso. Talvez o homem estivesse encapsulado por motivos nobres. É verdade, convém lembrar que os pais vivem enrascados mais ou menos como aquele coração de papel, espremidos entre dois limites extremos: não podem dar aos filhos tudo o que têm de melhor, tampouco podem oferecer aquilo que lhes falta. Tudo isso era compreensível. Mas a outra parte de Rafael, agora sendo sincero e impiedoso, sentiu uma repulsa vulcânica pela surdez daquele homem. Surdez, essa era a palavra. Uma surdez sem limites que agora reverberava nas lembranças de sua própria infância.

Rafael voltou-se para o menino, sem saber como ajudá-lo. Então, num lampejo, como uma espécie de tesuji, disse:

— Mas, ei, tem um truque que eu posso te ensinar… Já sabe das reticências?

— Quem?

— Os três pontinhos!

Rafael pegou um guardanapo amarrotado e esboçou sua solução mágica, repetiu o coração espiral do garoto, mas dessa vez adicionou o símbolo das reticências em ambas as extremidades. Os três pontinhos queriam dizer “assim por diante”, “daqui para a frente e sem fim”, “desse jeito por toda a eternidade”… Caio entendeu o truque, desenhou sua própria versão do coração infinito na última folha de sulfite e enfim desarmou as caretas. Havia rasgado as margens do papel sem feri-lo. Um grande feito, um grande alívio.

O episódio acompanhou Rafael durante o voo de Paris a Oslo. Entre lembranças da infância e um orgulho quase obsceno, sentiu-se reconfortado. Mas por quê? Por ter ajudado um menino a driblar os limites do mundo ou por ter provado a si mesmo que era diferente do próprio pai? Diferente também do avô?

Na segunda metade do voo, as preocupações financeiras voltaram a rondá-lo. Largar o design, recusar a mesada paterna, único vínculo sólido e frio entre os dois, encontrar um novo trabalho, um novo país, uma nova direção. A mente girava em circuito fechado, até que Rafael, brincando com a pronúncia de seu destino final, murmurou.

— Tromsø… Trom sø… Trom sø… Tr… ommm søul… Ommmmm søul…

Mas o “tr” sobrava no mantra improvisado. Era um escombro duro que atrapalhava o livre fluxo da transmutação. Antes que pudesse lapidar melhor a ideia, os alto-falantes anunciaram a chegada a Oslo…