O real da voz

Abbeycwmhir de Ed O’Brien

A voz que agora ressoa em mim é a sua. Está a um metro e meio das suas cordas vocais. Você fala há cerca de meia hora, e eu te escuto de olhos abertos, às vezes fechados. Sua voz é agora o mais importante. Ela ressoa e nada mais me chama a atenção.

Eu a acompanho como acompanho meus próprios pensamentos. Sua voz percorre o espaço e pensa dentro de mim. Bem-vinda, acolho-a com devoção e sigo o caminho de suas palavras até o altar do acontecimento.

A voz possui um curso próprio. Eu não posso alterar o seu fluxo, não posso desviar o seu caminho, não posso antecipar suas frases. Não são minhas as palavras dessa voz que me habita. Estou calmo e paciente, como raramente me acontece, e acompanho essa estranha música. A sua voz interior — lá de fora — é o meu pensamento externo — aqui dentro. Por isso, a sua voz é irmã do meu próprio pensar.

Lá fora e aqui dentro. Onde fica a linha divisória?

Onde está essa voz anfíbia, sua e minha ao mesmo tempo? Como cartografar o espaço que ela ocupa, o lugar real das coisas? A pergunta me atiça enquanto você fala sobre rochas brasileiras e me mostra algo importante de sua vida.

Há em mim um mundo acumulado e viciado em explicar-se. Tenho memória, conhecimentos e um automatismo pensante que amarra frases, reorganiza ideias, prepara respostas. Tudo isso me protege de certas perturbações vitais. Sei que minha questão com o som pode levar longe demais. Perguntei “onde está a voz?”, mas poderia ter perguntado “onde está essa música?”. A pergunta é perigosa. Calcina.

De repente, retomo a sensação de controle. É como se já soubesse o que está acontecendo e pudesse estabilizar a pergunta com uma explicação científica.

Antes de se tornar som, sua voz começou numa atividade neural convertida em respiração e movimento. O ar expelido pelos pulmões colocou suas cordas vocais em vibração. Língua, lábios, mandíbula e cavidades de ressonância modelaram o som. Ondas de pressão atravessaram cerca de um metro e meio de ar até alcançarem meu ouvido. Fizeram vibrar a membrana do tímpano e moveram os três pequenos ossos do ouvido médio – martelo, bigorna e estribo. O estribo transmitiu essas vibrações à cóclea, onde células sensoriais as transformaram em sinais eletroquímicos. O nervo auditivo, o tronco cerebral, o tálamo e diferentes regiões do córtex participaram da decomposição das frequências, intensidades e variações temporais, permitindo que eu localizasse a fonte do som e reconhecesse nela uma voz: mesmo de olhos fechados, sei que você está a um metro e meio de mim, e não apenas “em mim”. Reconheço sua cadência, seu sotaque, seu timbre, que não se confundem com a minha voz mental, nem com aquela que escuto quando falo, tampouco com a minha voz alienígena que ouço numa gravação do WhatsApp. Meu cérebro cruza o som que você produz com minha memória, minha língua e minha história, e faz surgir esta voz que identifico como sua.

A voz é sua e acontece rigorosamente em mim, é inseparável de quem a escuta: eu não eu.

Tudo seria diferente se um de nós estivesse dormindo, se eu fosse uma onça-parda ou se você falasse húngaro, ou se sua voz afásica atingisse o meu cérebro surdo. Já não partilharíamos este mesmo acontecimento milagroso da linguagem, por alguns minutos, dois corpos sustentando uma consonância biolinguística delicada, à revelia do que sabem sobre a neurofisiologia da voz.

A explicação é rigorosa no plano em que opera, localiza a fonte sonora, descreve mecanismos e reconstitui o percurso causal da vibração até a atividade cerebral. Ainda assim, não situa inteiramente a voz. A resposta científica não me apazigua em matéria de real. Algo do fenômeno vivido permanece calado. Não encontro a membrana divisória entre nós.

Onde está, de verdade, essa voz?

Esse algo, calado, se agita. Há um ímpeto insaciável que não aceita resposta alguma, uma paixão camicase por esfacelar interrogações e pontos finais. Pressinto um abismo na realidade. Chegar à raiz da voz, ver o mundo a partir desse lugar imaterial, no peito bruto.

Um espaço interno seu. Um ambiente intermediário e externo entre nós. Um espaço interno em mim. Três espaços? A voz está em algum deles? Em dois? Nos três simultaneamente? E agora, depois que você silenciou por alguns instantes, ela ainda é sua ou já é minha? Posso pensar com seu timbre, imaginá-lo, utilizá-lo como se fosse o meu.

Estou pensando com a sua voz.

Onde acontece sua voz é onde sou?

Aposto tudo em não saber onde sua voz está. Uma coisa me parece clara. A voz é sua, mas seu lugar não tem dono. Não há matrícula, escritura nem IPTU sobre o terreno da voz. Essa (im)propriedade não é privada nem pública.

Deixo a percepção ser conduzida pelo estranhamento. Enquanto isso, sua voz vibra e faz surgir imagens dos lugares por onde você caminhou, das rochas que encontrou, dos sabores experimentados num restaurante nordestino. Não se engane com estas palavras. É somente no texto que pareço ignorar sua vida para me obstruir com pensamentos secretos. Estou te escutando. Acompanho o que você diz e deixo que o abismo de sua voz nos conduza.

Escuto sua voz no mesmo lugar em que você sente o aroma do eucalipto.

Espero que estas palavras não resolvam nada. Que possam desentender a pergunta até alguma coisa irromper. Sua voz me leva a uma abertura cinética, a uma reorganização súbita do modo como percebo tudo ao redor.

Aparece algo que não é uma coisa e, contudo, dá lugar ao espaço em que depois localizamos nossas vozes. O lugar da voz quer eclodir. Sua força é tão turbilhonante que, algumas vezes, temi enlouquecer. Minha razão se sente ameaçada. Como me fazer entender? Como traçar coordenadas de um território imaterial? Como enviar notícias de um translugar?

Você fala de sua próxima viagem ao exterior e eu sou rasgado e lançado ao lugar em que já estamos, espalhado pela vida, em lugar nenhum. E ainda aqui. Restam-me as metáforas de um astronauta que parte de casa em direção ao próprio planeta de origem.

Sua voz continua a ressoar. Você fala sobre a Patagônia, sobre uma montanha deslumbrante, sobre a vontade de caminhar pelas geleiras e o risco de cair em suas fissuras.

Desejo que o chamado da voz sem dono também atravesse você, que possa ser conduzido por ela como por uma música. A criação areja o corpo com um rompante de cura.

Se escuto sua voz através do peito, sem ter por onde, chamo isso de amor.

Isso passa.

Meu amigo querido, você ri da história de quando escorreguei numa cachoeira. Não me vê explodido, decapitado e jorrando vida. Sorrio de volta e, quando olho em seus olhos, vejo que se enchem d’água. Nossa risada celebra a dobra, o knoten. Rimos com boca, rosto e nome. Rimos também a partir de um lugar sem boca, sem rosto e sem nome.

Porque acompanho sua voz e a escuto até às últimas consequências, abriu-se um abismo na psicanálise, na filosofia, em qualquer pensamento ou metafísica.